Quinta-feira, Março 23, 2006

Tribo


Há uma tribo que sonha
e nunca esqueceu as asas.
E acredita em coisas simples,
sol, pão, chuva, beijo, lua.
E mesmo quando o sangue
tinge as tardes e os rios,
e as palavras se transformam
em veneno, pedras e facas,
alimenta as sementes da esperança
com lágrimas e pequenos gestos limpos
para que virem árvore.

(Roseana Murray)

Tempo Rei


Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos
Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
Água mole
Pedra dura
Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas de repente ficam sujas
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

(Gilberto Gil)

Cidadezinha cheia de graça...


Cidadezinha cheia de graça...
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...

Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um só segundo...
E fica a torre, sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!...

Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me dera ter lá nascido!

Lá toda a vida poder morar!
Cidadezinha... Tão pequenina

Que toda cabe num só olhar...

(Mario Quintana)

Quarta-feira, Março 22, 2006

Responsabilidade universal


A humanidade é uma só e este pequeno planeta é nossa única casa.
Se temos de proteger esta casa, cada um de nós precisa experienciar um sentimento vivo de altruísmo universal.

Nosso planeta foi abençoado com vastos tesouros naturais.
Se os usarmos adequadamente, todo ser humano poderá usufruir de uma vida rica e de bem-estar.

Hoje, enfrentamos muitos problemas.
Alguns criados por nós em conseqüência de diferenças ideológicas, religiosas, raciais, econômicas.
Entretanto, chegou o momento de pensarmos em um nível mais profundo, em nível humano, e a partir daí apreciar e respeitar essa mesma condição nos outros seres humanos.

Devemos construir relacionamentos mais próximos, de confiança mútua, compreensão e ajuda.

Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento.
Todos temos o mesmo direito de ser felizes, e aí reside a nossa igualdade fundamental.

Não é necessário seguir filosofias complicadas.
Nosso próprio cérebro, nosso próprio coração é o nosso templo. A filosofia é a bondade.

Quando os seres humanos se desentendem, mostram que esqueceram suas semelhanças fundamentais para supervalorizar razões secundárias.
Por razões secundárias um homem destrói outro homem e destrói o planeta que o abriga.

Cultivar-se internamente é que garantirá nosso direito à felicidade e até à sobrevivência.

Porque, por mais mortíferas que sejam as armas produzidas pelo medo e pelo ódio,
é necessária a mão de um homem para detonar o gatilho.
(Dalai Lama)

Exausto


Eu quero uma licença de dormir,

perdão pra descansar horas a fio,

sem ao menos sonhar

a leve palha de um pequeno sonho.

Quero o que antes da vida

foi o sono profundo das espécies,

a graça de um estado.

Semente.

Muito mais que raízes.

(Adélia Prado)

Reinvenção



A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo... – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida
só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
Cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só – no tempo equilibrada,
Desprendo-me do balanço
Que além do tempo me leva.
Só – na treva, fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida
a vida só é possível
reinventada.

(Cecília Meireles)

Quinta-feira, Março 16, 2006

Oração a Gaya


Amada Mãe Natureza,
Amada Consciência da Natureza,
Amada Mãe Água,
Amada Consciência da Flora e da Fauna.
Amada sois.
Terras e Matas, colinas e campos.
Luz e luar.
Bendita és tu Mãe Natureza que a todos provém.
Bendita és tu, que a todos acolhe.
Em suas águas se encontra a cura.
Em suas matas se encontra a cura.
Em todo seu, a cura está.
Amada sois.
A Natureza, como um ventre materno, provém à vida aos que aqui vieram habitar.
A Natureza, como um velho sábio, ensina a vida aos que aqui vieram aprender.
A Natureza, como um novo livro, ensina ao homem a ser sábio.
A Natureza, como fonte divina, ensina aos seus como ser parte do todo.
Amada sois.
As nuvens e os rios, mostram a força das águas e dos ventos.
As nuvens e os rios, mostram quem sempre vai. Como a vida segue.
As nuvens e os rios, falam do amor que corre, como sangue nas veias das matas.
As nuvens e os rios, trazem o amor até os corações, como o oceano e o barco.
Amada sois.
Que o milagre da Mãe Natureza, seja o milagre de vossas vidas.
Que o milagre da Mãe Natureza, seja a cura de vossas vidas.
Que o respeito à Mãe Natureza, seja o respeito por vossas vidas.
Que a renovação da Mãe Natureza, seja a renovação de vossas vidas.
Amada sois.
Que a Consciência Divina das Matas, encontre ressonância em vós.
Que a Consciência Divina das Águas encontre concordância em vós.
Que a Consciência Divina das Terras, encontre abundância em vós.
Que a Consciência Divina dos Ventos, encontre elegância em vós.
Amada sois.
Amada és.
Amados vós.
Amados somos.
Que a alegria e o amor vivam em vosso coração, como a semente que germina em tenro lugar.

Poema em linha reta

Obra de Miró

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar dos olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedindo emprestado sem pagar,
Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez só foi vil?

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos, nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores, sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


(Álvaro de Campos)

Paciência


Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é o tempo que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo pra perder?
E quem quer saber
A vida é tão rara
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
Será que é tempo que me falta pra perceber?
Será que temos esse tempo pra perder?
E quem quer saber
A vida é tão rara
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára.

(Lenine/Dudu Falcão)

Quarta-feira, Março 15, 2006

Soltar


Soltar não é subtrair-me, mas perceber que eu não posso controlar os outros.

Soltar não é tentar mudar os outros, mas dar o máximo de mim.

Soltar não é corrigir, mas dar suporte.

Soltar não é negar, mas aceitar.

Soltar não é ajustar tudo de acordo com os meus desejos, mas aceitar cada dia como venha.

Soltar não é parar de cuidar.

Soltar é amedrontar-se menos e amar mais.


(Brahma Kumaris)

Só o vento

Obra de Claude Monet

O vento bate em minha face,
Ele mexe comigo, congela
Balança os meus cabelos,
Venta forte lá fora agora.
O vento me levanta a saia,
Todos se viram a me olhar
O vento não quer parar,
Sopra vento me gela a alma.
O meu corpo sente, se recente,
O vento não quer parar,
Cai um chuvisco agora,
Troveja forte lá fora,
Sinto falta do meu amor,
Que dor eu choro...
O vento a ventar, a dor
Que não quer calar.
O vento forte a ventar
A dor a aumentar,
Sinto tua falta agora
E este vento não quer parar.
(Iris Padovan)

Escuridão


Apagaram-se as luzes do salão.
Entretive-me procurando uma caixa de fósforos e uma vela,
no escuro absoluto.
Foi então que,
deparei - me com uma janela
de onde se avistava a lua e lá fiquei a admirá-la,
mesmo minguante, como estava.
Esqueci-me do que buscava,
isso já não importava.
Percebi que, a escuridão fica mais clara,
quando a enfrentamos cara a cara,
sem medo, sem susto, sem expectativas.

(Véra Lúcia de Campos Maggioni)
Todo conteúdo desta obra está protegido pela lei dos Direitos Autorais de 19 de Fevereiro de 1998.
Proibido reprodução parcial ou total da obra.
Direitos Autorais Reservados - Véra Lúcia de Campos Maggioni - Vera&Poesia

Terça-feira, Março 14, 2006

Desapego


"Imagine-se numa galeria de arte observando as pessoas olharem os quadros.
Dificilmente você verá alguém com a face colada na tela.
Desapego é simplesmente dar um passo para trás e observar.
Mas como isso não é ensinado por nossos pais e professores, passamos por apertos quando ficamos muito perto da tela da vida.
Mestres nunca se aproximam demais das situações, mas também nunca viram as costas para elas.
Mestres nunca consomem as emoções e humores dos outros, mas nunca negam sua validade."

(Mike George, The Path of the Slave-The Path of the Master, Retreat, Nº10, London)

Sábado, Março 11, 2006

Velas, lamparinas & dançarinos


Tomem muito cuidado no destino
De determinadas sinfonias
Se a música é de dor-de-cotovelo
A festa da dor nunca termina
Se as danças arrastam-pés
Forrós desejam as Letras na sina
Se os rocks são velhos no salão
Pernas se voltam para o passado
Conjugando as determinações nos baús
Se equilibrarão ou não nos compassos
Conforme as questões
No espaço dentro das arquitetações
Nos corações irão bater novos passos
Rumos se formam entre (a)braços
Há musicalidade nos traços dos acordes
Da mente e nas linhas dos destinos
Cerrando ou quebrando correntes
Entre caminhos que desafi(n)am...

(Rosangela Aliberti)

E então, que quereis?...


Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
(Maiakóvski)

O vaqueiro

Obra de Aldemir Martins

Eu venho desde menino
Desde muito pequenino
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhor

Não nasci pra ser guerreiro
Nem infeliz estrangeiro
Eu num me entrego ao dinheiro
Só ao olhar do meu amor

Carrego nesse meus ombros
O sinal do Redentor
E tenho nessa parada
Quanto mais feliz eu sou

Eu nasci pra ser vaqueiro
Sou mais feliz brasileiro
Eu num invejo dinheiro
Nem diproma de doutor

(Patativa do Assaré)

Quinta-feira, Março 09, 2006

Epitáfio


Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar


(Vinícius de Moraes)

A experiência maior


Eu antes tinha querido ser os outros
para conhecer o que não era eu.
Entendi então que eu já tinha sido os outros

e isso era fácil.
Minha experiência maior seria

ser o outro dos outros:
E o outro dos outros era eu.


(Clarice Lispector)

Louvação



Vou fazer a louvação - louvação, louvação
Do que deve ser louvado - ser louvado, ser louvado
Meu povo, preste atenção - atenção, atenção
Repare se estou errado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado

E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!

Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não pára
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado

Vou fazendo a louvação - louvação, louvação
Do que deve ser louvado - ser louvado, ser louvado
Quem 'tiver me escutando - atenção, atenção
Que me escute com cuidado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado

Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra

Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
Da vida pra não morrer

Vou fazendo a louvação - louvação, louvação
Do que deve ser louvado - ser louvado, ser louvado
De todos peço atenção - atenção, atenção
Falo de peito lavado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado

Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera

Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar
Mas que cantará na certa
Quando enfim se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar

E assim fiz a louvação - louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado - ser louvado, ser louvado
Se me ouviram com atenção - atenção, atenção
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece
Deixando o ruim de lado

(Gilberto Gil/Torquato Neto)